O meu amigo invisível

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O amigo imaginário reflete uma mente criativa e é uma forma de experimentar sentimentos e de expressar poder. E não há que ignorá-lo. Ao integrar esse personagem nas conversas e brincadeiras, os pais estão a entrar no mundo dos interesses, preocupações e modo de pensar dos seus filhos.

A criação de amigos imaginários é um fenómeno associado à magia da infância e à capacidade espontânea da criança para criar ligações entre a sua fantasia e a realidade que a rodeia. Longe de ser um fenómeno preocupante, reflete uma mente criativa e imaginativa – podendo ser entendida como a primeira abordagem criativa do ser humano face ao mundo relacional que o rodeia… e uma forma extraordinária de se experimentar mais capaz e independente face às figuras parentais!

A literatura científica e a experiência clínica datam a “história” dos amigos imaginários por volta dos 14/18 meses (às vezes até mais cedo). Trata-se de um personagem (humano ou não) criado pela criança, com quem esta interage, fala e brinca como se fosse real, e é normalmente da mesma faixa etária do seu criador. Distingue-se do tipo de brincadeiras com brinquedos por ser um amigo invisível… com quem os pais podem ouvir a criança a falar quando está a brincar ou sobre quem a criança fala aos pais! 

Embora as crianças distingam o seu aspeto ficcional, muitas vezes os pais ficam preocupados com o grau de realismo com que os seus filhos falam dos seus amigos imaginários, que às vezes até podem ocupar uma cadeira à mesa das refeições, ou servir de desculpa para um “mau comportamento” da criança (como se encontra bem ilustrado num episódio da série infantil Ruca), ou ser alvo da projeção de um medo da criança. Considerada uma etapa normal do desenvolvimento infantil, a criação destes amigos imaginários permite transferir para um outro a responsabilidade ou autoria do comportamento/sentimento da criança. 

A relação da criança com este amigo é muito vívida, mas se lhe perguntarem se tal amigo existe ou não, a criança sabe que não existe, mesmo que não o diga claramente. Mas enquanto brinca “com ele”, esse amigo é tão nítido como o é na sua fantasia – projetado para uma zona entre a fantasia e a realidade que só os olhos da brincadeira podem ver.


Ajuda a lidar com sentimentos e emoções
Crescendo em complexidade até à adolescência, o amigo imaginário emerge da projeção das partes idealizadas (nos seus aspetos bons e maus) dos pais ou de outras figuras significativas (como educadores ou amigos). Por exemplo, o amigo imaginário pode “encarnar” a boa mãe ou a bruxa má. Ou seja, através da brincadeira e da fantasia, a criança produz “versões” de caráter mais perfeito ou mais ameaçador do que a realidade das suas figuras significativas.

É uma forma de, por um lado, experimentar e integrar sentimentos de poder, imitando comportamentos agressivos ou de autoridade por parte dos adultos de referência (zanga dos adultos para com ele ou para com amigos). E, por outro lado, de aprender a lidar com o emergente sentimento de culpa (na medida em que começa a compreender que alguns dos seus comportamentos são considerados negativos ou mesmo proibidos e ao fazê-los sente-se mal e a desiludir/magoar pais ou educadores).

Acresce que a criação de um amigo imaginário permite à criança, no teatro da brincadeira, representar emoções quer na sua perspetiva quer na perspetiva do outro. Tal bi-dimensionalidade do amigo imaginário (ao mesmo tempo eu próprio e o outro significativo) permite à criança representar situações de uma forma tridimensional, ou seja, colocar em cena a interação entre as suas vivências e emoções e as que imagina de um outro. Assim, o amigo imaginário não só pode passar por situações ou vivenciar emoções que são do próprio, como traduzir o estilo relacional do outro significativo.

Com efeito, o amigo imaginário é um condensado de projeções e permite à criança experimentar, na segurança da imaginação, respostas a situações e emoções. Próximo do fenómeno de sonhar acordado ou conversar consigo mesmo, ou mesmo de escrever uma história, no adulto, brincar com o amigo imaginário permite à criança elaborar e integrar vivências da sua realidade, interna e externa. 

Quando um adulto sonha acordado, em simultâneo pensa nas suas emoções, exprime o seu desejo e encena a resposta do outro, pensando de acordo com a perspetiva desse outro (naturalmente, o outro que está dentro de si, não o outro real), mas no sentido do seu próprio desejo.

A título de curiosidade, partilho convosco dados de estudos em neurociências, que me foram transmitidos pelo psicoterapeuta infantil Miguel Mealha Estrada, segundo os quais o sonhar acordado ou “day dreaming” (que muitas das vezes inclui amigos imaginários) tem o mesmo circuito cerebral da recompensa, chamado “Seeking System”. Tal sistema é o propulsor da motivação a ter motivação. Por exemplo, se a criança está aborrecida ou com medo, tal sistema primário entra em ação e a criança “entra no seu próprio mundo imaginário”, pois este a faz sentir-se bem (funcionando como uma defesa contra a ansiedade, o medo, etc.). Dá prazer imaginar ou entrar no mundo da fantasia e este funciona como uma recompensa, fisiologicamente falando. 

Os estudos efetuados na área da psicologia sugerem, por um lado, que esses amigos costumam aparecer quando as crianças passam por momentos de ansiedade ou de perdas significativas. São uma forma de não estar tão só face à situação vivenciada e de poder encontrar o cuidado e o conforto que, por vezes, podem não estar a ser prestados nos adultos significativos, por indisponibilidade emocional ou mesmo por ausência física. E, por outro, apontam para o facto de a criação de amigos imaginários estimular o desenvolvimento infantil, na medida em que estimula a capacidade de empatia e de imaginação de cenários e soluções. Neste sentido, podemos pensar que os amigos imaginários evidenciam a existência de recursos psicológicos importantes para lidar com os desafios/angústias da vida.

Além disso, neste brincar de “faz de conta”, a criança sente-se “dona” da situação. Com o amigo imaginário, a criança pode ensinar, falar, “mandar” de uma maneira que poderia ser impensável face aos seus amigos de carne e osso ou mesmo aos membros da família. Acresce que, projetada (ou não) no seu amigo imaginário, a criança é tão forte como os pais e até mesmo independente face a estes, uma vez que com a magia da varinha mágica da fantasia pode resolver todo o tipo de situações ou ser o super-herói que de nada tem medo.

Os pais podem ficar chocados com os sentimentos e comportamentos de hostilidade e agressividade presentes na brincadeira. Os sentimentos de culpa, ainda em grande parte inconscientes e em fase de integração e elaboração, são severos e demasiado assustadores para serem assumidos pelo próprio. Será precisamente através dos comportamentos de destruição e de reparação na brincadeira que a criança aprende a lidar com o ódio e o amor… e a culpa.

Percebendo que o seu filho distingue a realidade da fantasia e que esse amigo imaginário traz sobretudo prazer e enriquecimento da brincadeira, parecendo auxiliar o seu filho a elaborar situações com que se depara, os pais podem ficar descansados e não devem “interferir” com a sua “existência”.

Mas não ignorem esse “amigo” do vosso filho, sobretudo quando ele é inserido na dinâmica da família. Integrando o amigo imaginário nas vossas conversas e brincadeiras com o vosso filho, tal como fazem quando brincam com os brinquedos, na realidade estão a permitir-se entrar no mundo dos interesses, preocupações e modo de pensar dos vossos filhos.

Brincar com a criança, seja com brinquedos ou com o seu amigo imaginário, em termos comparativos, tem o mesmo papel de partilha de interesses, ideias, emoções, permite o mesmo sentimento de se ser entendido e de se ser enriquecido com a visão do outro, que existe numa conversa entre adultos ou jovens. 

Conversando ou tentando perceber um “comportamento” do amigo imaginário, e mesmo integrando o vosso filho nessa conversa (porque é que achas que ele teve esta atitude?), estão, na realidade, a ajudá-lo a pensar, a falar e a lidar com situações da vida dele.

 E se a criança se isola?
As crianças que criam amigos imaginários habitualmente estão bem integradas socialmente e estes amigos não servem como substitutos dos “de carne e osso”. São sinal de um desenvolvimento emocional e cognitivo saudável, espelhando a capacidade de construir um mundo imaginário povoado de figuras e complexo nas suas relações!

Contudo, há crianças solitárias com tendência ao retraimento, em que os amigos imaginários persistem longamente ou parecem mesmo substituir a relação com outras crianças. Nestes casos, a criação do amigo imaginário parece enquadrar-se num quadro de inibição e evitamento social. É uma situação em que pode considerar a ajuda de um psicólogo. 

Quando uma criança se isola é porque sente dificuldade em gerir as exigências emocionais que a relação com os outros lhe coloca. A sua auto-estima está fragilizada e apresenta um estilo inseguro e evitante de lidar com os outros. Isola-se e evita porque sente que a relação com o outro é de uma exigência emocional à qual não consegue dar resposta satisfatória e sente como falhanço pessoal e relacional as dessintonias na relação com os outros. 

Nestes casos, a criança pode criar um amigo imaginário que a ajuda a não se sentir tão só e a encontrar, na sua fantasia, o sentimento de aceitação e de reconhecimento que não encontra nas relações com outras crianças ou adultos. É com “ele” que desabafa, com quem brinca, em segredo, no recreio da escola ou em casa. Porque ditado pelos mandos e desmandos do desejo da criança, é grande o prazer que a criança retira deste amigo imaginário. Pode ser uma projeção em simetria da criança, ou seja, com características imaginadas idênticas às da criança (e ser, por exemplo, vítima de humilhação ou de negligência, perpetradas pela criança, que assume o papel do adulto agressor, ou ser alvo do cuidado e do carinho que a criança lhe dá tal como gostaria de receber dos adultos significativos) ou pode ser uma projeção por assimetria, ou seja, com características diferentes das da criança (e ser, por exemplo, mais destemido e extrovertido que a criança).
Contudo, raramente este amigo imaginário pode ter o papel de complementaridade que têm os amigos reais – porque oferecem respostas diferentes, porque nos obrigam a sair fora da nossa zona de “conforto”, de conhecimento e nos abrem novos horizontes. Encerrando-se num mundo imaginário, absolutamente controlado por si, a criança não aprende relacionalmente: não amadurece nem expande. Fica fechada dentro de si mesma, das suas dificuldades, das suas formas de pensar e de sentir, sentindo-se cada vez mais incapaz de gerir as exigências emocionais do mundo exterior. 


Porque é que as crianças arranjam amigos imaginários?
As crianças começam a brincar ao “era uma vez” ou ao “faz de conta” muito cedo, por volta 14/18 meses e, regra geral, por volta dos três anos, podem projetar emoções e comportamentos para um personagem invisível, com quem interagem. É uma forma de experimentar sentimentos de poder, imitando comportamentos agressivos e amorosos por parte dos adultos de referência (zanga/gestos de carinho dos adultos para com ele ou para com amigos), de aprender a lidar com o emergente sentimento de culpa (na medida em que começa a compreender que alguns dos seus comportamentos são considerados negativos ou mesmo proibidos e ao fazê-los sente-se mal e a desiludir/magoar pais ou educadores), e de aprender a lidar com sentimentos de abandono, solidão, entre outros.

Existem situações que podem despoletar o aparecimento do amigo imaginário?
Quando a criança passa por momentos de stresse ou de ansiedade, como por exemplo quando um amigo muda de escola, perante o falecimento de um familiar significativo, separação dos pais, ou mudança de casa, cidade ou país.
- Quando a criança sente saudade de uma pessoa significativa, o amigo imaginário pode substituir o tipo de relação que essa pessoa tinha com a criança, contribuindo para a gestão da angústia face àquela separação/perda.
-  Quando a criança sente solidão ou o medo do abandono ou o medo do escuro, este amigo faz-lhe companhia e pode até precisar do consolo e do mimo da criança, reduzindo a ansiedade vivida e ajudando-a a pensar sobre a situação e a procurar formas de a gerir. Entre outras coisas, conversar com o amigo pode ter o efeito de a acalmar, para além de que a ajuda a colocar em palavras o que sente.
- Quando a criança quer ser tão forte e poderosa como sente que são as suas figuras significativas, sejam os pais, os educadores ou algum amigo. Com a ajuda da magia da varinha mágica da fantasia pode resolver todo o tipo de situações ou ser o super-herói que não precisa da ajuda de ninguém. Sob a capa de amigo imaginário, pode imitar os comportamentos zangados dos pais e até ousar dirigi-los a estes.

É normal?
 Ter amigos imaginários é algo perfeitamente comum e ajuda a criança a lidar com as suas emoções e experiências.
- Reflexo de um desenvolvimento normal das suas capacidades cognitivas e emocionais, proporciona-lhe instrumentos simbólicos, imaginativos e criativos para lidar com o mundo relacional que a rodeia.
- Muitas vezes, nestes amigos, são projetados sentimentos difíceis como a raiva, o ciúme, a inveja e a frustração.
-As conversas das crianças com seus amigos imaginários constituem mais uma via de acesso dos pais ao mundo interno dos seus filhos.
-Quando estiver perante uma brincadeira, não procure controlá-la nem dar indicações de como é que esta deve decorrer.

Lembre-se que as brincadeiras são a forma de as crianças conversarem consigo próprias e com os outros em quem confiam e uma maneira de explorar mentalmente os modos de elaborar e fazer face às situações e emoções da sua vida relacional. l A ajuda de um psicólogo deve ocorrer quando os pais notam que o amigo imaginário vem enquadrar-se no estilo relacional evitante do seu filho e quando as suas conversas com aquele são em tom negativo, traduzindo baixa auto-estima e tristeza

Fonte: paisefilhos.pt

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